A derrota contra todas as probabilidades de um adversário muito mais poderoso e um protagonista pouco conhecido dão mote a uma história para contar. O ciclismo de estrada, com todas as suas nuances, variáveis, condições, sorte e táticas, é o cenário perfeito para uma cena de Davi vs Golias. Adicionando a vantagem do fator casa, temos João Rodrigues a correr por uma equipa da terceira divisão, a derrotar alguns dos maiores atletas do ciclismo mundial e a reescrever a história.

A Volta ao Algarve tem o estatuto de UCI Pro Series, igualmente classificado com corridas lendárias como Paris-Tours, Tour of Britain, Vuelta a Burgos, Trofeo Laigueglia e Kuurne-Bruxelas-Kuurne. Um troféu em qualquer uma destas competições seria valorizado até mesmo pelo ciclista mais condecorado. A nível pragmático, o status do evento GCI significa que as equipas de primeira linha marcam uma forte presença, procurando um número significativo de pontos em jogo, por exemplo, nome como Ineos Grenadiers, AG2R Citroën, Bora-Hansgrohe, Groupama-FDJ, UAE Team Emirates e Deceuninck-QuickStep.

Portanto, para uma equipa UCI Continental como a W52-FC Porto, que tem apenas como orçamento um apequena parcela das grandes equipas, torna-se uma tarefa difícil deixar a sua marca (e marcar pontos) na corrida mais importante do país, contra todas as equipas da UCI WorldTeams. Na verdade, em 2006, foi a última vez que um ciclista que não pertencia a uma das equipas de topo do ciclismo venceu a Volta ao Algarve. Obviamente, como uma marca de bicicletas pequena, comparativamente às cinco grandes, sentimos o coração palpitar, pois sabemos muito bem como é enfrentar as grandes equipas. No domingo, 9 de maio, João Rodrigues lembrou-nos que é possível, se nos atrevermos a tentar.

Foi o último dia da 47ª Volta ao Algarve - a final, depois de quatro etapas de provas duras. Rodrigues e a sua equipa fizeram uma abordagem ambiciosa, mas realista, da etapa de abertura - claramente um dia para os velocistas. A equipa portuguesa manteve-se atenta e focada, sempre perto da linha da frente, mas, quase previsivelmente, uma das melhores equipas a nível mundial apostou no seu melhor velocista, Sam Bennett, e a Deceuninck-QuickStep saiu vitoriosa e com a camisola amarela.

Porém, não demorou muito para que Rodrigues e seus colegas de equipa mostrassem dessem cartas - no dia 2, a etapa de 182,8km, de Sagres até ao topo de Fóia, a equipa Ineos Grenadiers pressionou com Iván Sosa, Ethan Hayter e Sebastián Henao para carimbar a sua autoridade na corrida, com Hayter a subir ao pódio. Mas Rodrigues ficou por perto. Acabaram empatados na CG, com o inglês a levar a camisola amarela por ter vencido esta etapa espetacular (e Rodrigues vestiu a camisa do KOM).

A terceira etapa foi para a consolidação da CG e para Sam Bennett, novamente. O irlandês garantiu a competição por pontos com uma vitória no sprint. O contrarrelógio individual do dia seguinte acabou por ser fundamental, não apenas pelos motivos habituais que a "corrida da verdade" revela. O líder da CG, Hayter, estava imparável, até que guinou um pouco de mais para a esquerda a 50km/h e teve um acidente. Conseguiu rapidamente voltar para a bicicleta, mas a perda de tempo custou-lhe cerca de um minuto. Ao mesmo tempo, Rodrigues apresentava uma atuação sólida e jogava a seu favor com o conhecimento das estradas e do pavimento. Com o infortúnio de Hayter, Rodrigues manteve-se na disputa CG, ficando o ciclista da W52-FC Porto a apenas 12 segundos da liderança.

170 quilómetros, entre Albufeira e o Alto do Malhão (Loulé), separaram o jovem de 26 anos de fazer história no ciclismo. A etapa contou com ataques desde cedo, mas só aos 30 quilómetros aconteceu a fuga do dia, com 13 ciclistas livres, resumindo-se tudo à subida final. A W52-FC Porto ditou o ritmo, colocando pressão sobre o camisola amarela. A faltar poucos quilómetros para o final, Rodrigues e Amaro Antunes conseguiram fazer frentes aos ataques de outros ciclistas. Élie Gesbert (Team Arkéa-Samsic) fez o movimento que acabou por quebrar o elástico entre o pequeno grupo que, entretanto, se formou e o camisola amarela. Assim, Rodrigues e Antunes rapidamente perceberam que esta era a sua oportunidade para ganhar a corrida.

A inclinação da subida do Alto do Malhão foi demais para Hayter, que claramente estava a sofrer com os ferimentos da queda do dia anterior, mas, apesar dos seus esforços, o intervalo de tempo aumentou. Com a implacabilidade do ciclismo à mostra, Antunes foi para a frente do trio (incluindo Gesbert e Rodrigues), sacrificando suas próprias hipóteses de uma vitória na etapa por uma causa maior.

Quando Antunes terminou, Rodrigues assumiu a liderança, compensou a maior parte do ajuste do ritmo, o que permitiu a Gesbert uma pequena trégua do ciclista português e deixando o francês um pouco mais revigorado para a corrida. Os esforços de Gesbert garantiram a sua segunda vitória profissional e também o quinto lugar na geral na edição de 2021. Rodrigues perdeu a etapa, mas com Hayter cruzando a linha 21 segundos depois, percebeu que tinha ganho um prémio maior - a vitória da CG por nove segundos!

“Foi uma corrida louca, rápida, em alta velocidade, mas a fuga estava sempre sob controlo. Era tudo ou nada. Essa foi a estratégia. O Amaro (Antunes) foi incrível, toda a equipa foi incrível”, disse Rodrigues.

Rodrigues nunca tinha vencido a Volta a Portugal 2019 nem nunca vestiu a camisola de líder, até subir no pódio, uma vez que a prova terminou. Hayter terminou em segundo na geral e o vencedor do Tour of Flanders, Kasper Asgreen (Deceuninck-Quickstep), terminou em terceiro lugar da geral, 28 segundos depois de terminar em oitavo na etapa, 19 segundos atrás. Foi uma vitória para toda a equipa W52-FC Porto, não só no quadro de resultados, mas também para provar que a equipa tem tudo para competir com as maiores e melhores equipas do mundo.

“Estou muito feliz, depois deste esforço de toda a equipa. Ainda mais porque é a Volta ao Algarve e eu, sendo local, é muito especial. Sabia que ia ser muito difícil por causa de todos os ciclistas de nível mundial que vêm todos os anos. Estou muito feliz, claro, é uma sensação incrível. Devo agradecer à equipa, ao meu treinador e a todos que me apoiaram”, disse Rodrigues.

João Rodrigues escolheu a nossa Ultravox como sua bicicleta para a Volta ao Algarve - confira na seção RACE.

Fotos: João Fonseca @joaofonsecaphotographer