A Volta a Portugal de 2020 quase não foi. Apesar das provas de ciclismo não terem sido os eventos mais afetados pela Covid-19 no mundo, não podemos ignorar o efeito que teve no calendário velocipédico, bastante mais pobre e condensado que tivemos este ano. A maior prova do calendário português esteve em risco, deixando a W52-FC Porto, a equipa portuguesa com mais credenciais nesta prova da última década, na expectativa sobre a possibilidade de defenderem o título conquistado em 2019 e de possivelmente acrescentarem mais uma vitória às 7 que a União Ciclista do Sobrado conseguiu, sob diversos patrocinadores, desde 2013 e de forma consecutiva. No momento em que já muitos davam como certo que 2020 seria um ano sem Grandíssima, a Federação Portuguesa de Ciclismo tomou a responsabilidade de organizar a prova a que chamaria de Volta a Portugal – Edição Especial 2020.

Qualquer vitória no ciclismo envolve um misto complexo de jogo tácito e força física. No caso da W52-FC Porto, envolve também uma muito sólida unidade e lealdade à equipa, tendo as histórias destes três homens contribuído para a forma como se desenrolou a disputa desta corrida ao longo de 9 dias.

O Renascido: Amaro Antunes
Nesta época de 2020, o Amaro Antunes regressou à equipa da qual fez parte em 2017, uma época brilhante em termos desportivos. Um dos pontos altos, para além do 2º lugar na Volta a Portugal, foi a etapa que conquistou no Alto do Malhão no desfecho da Volta ao Algarve 2017, uma prova com um pelotão recheado de estrelas do UCI World Tour e na qual conseguiu terminar no Top5, atrás de ciclistas de alto calibre como Primož Roglič e Michał Kwiatkowski.

No final da temporada assinaria um contrato de dois anos com a Team CCC, equipa com a qual subiu ao UCI World Tour após a fusão desta com a formação de Jim Ochowicz, a BMC Racing Team. No regresso a casa, provou logo o seu valor no início da temporada ao garantir um lugar no Top10 da Volta ao Algarve 2020, que à exceção dele, foi preenchido apenas por ciclistas do UCI World Tour, numa edição descrita como tendo o melhor pelotão de sempre.

O Amaro Antunes é um trepador nato e temido no pelotão português. Melhor ocasião para o provar foi a etapa 2 desta Volta, quando atacou do grupo principal a 38km do final. Para muitos, tão no início da prova e tão longe da meta, poderá ter parecido uma mera ameaça tática, quando todos os olhos estavam voltados ainda para o João Rodrigues, vencedor da Volta de 2019 e para o camisola amarela, Gustavo Veloso. Mas, retrospetivamente, foi nesse momento que se decidiu a corrida. O Amaro carregou nos cranques, equilibrando potência pura, o conhecimento que tinha do terreno e a mestria tática do seu diretor desportivo Nuno Ribeiro - que numa leitura exímia da prova, conseguiu criar uma situação em que as despesas de puxar na frente couberam à Efapel, equipa favorita sem representantes na frente da corrida e a Frederico Figueiredo, porque ao Amaro Antunes não interessaria carregar um rival melhor colocado na classificação geral para tirar a camisola amarela ao colega de equipa. A 500 metros do alto, o Amaro atacou de forma explosiva o companheiro de fuga, ganhando 22 segundos para passar à frente de Figueiredo na classificação geral, vencer a etapa e vestir a camisola amarela.

Protegido a semana inteira pela equipa de uma carga de ataques dos adversários, o Amaro Antunes parte com uma ténue vantagem de 13 segundos sobre Figueiredo para o contrarrelógio final de 17,7km. O tudo ou nada seria discutido num percurso plano pela Baixa Pombalina, com algum empedrado e zonas técnicas. O camisola amarela tinha perdido 9 segundos para Figueiredo no prólogo de 8km no fim de semana anterior. Apesar de tudo, o percurso deste último contrarrelógio tratava-se de uma prova completamente diferente do prólogo - sendo que o primeiro seria mais adequado a contrarrelogistas puros e o último, um esforço mais explosivo e acidentado.

No final, e apesar de aproximadamente terem a mesma idade, a experiência do Amaro noutros palcos falou mais alto, assim como a relação simbiótica com a sua bicicleta de contrarrelógio. E não se trata apenas de uma questão de horas dedicadas ao treino específico em cima da Neurogen – nas suas palavras, a sua condução neutra e flexibilidade estrutural permitiu-lhe focar-se apenas em debitar potência na estrada e manter uma posição aerodinâmica no pavimento variado das ruas de Lisboa. A conclusão? Essa ficará escrita na história do ciclismo.

O que sempre está: Gustavo Veloso
O Gustavo César Veloso é o corredor mais experiente da W52–FC Porto, quer em termos de palmarés, tendo corrido várias temporadas da sua carreira desportiva no nível Continental Profissional, onde ganhou a Volta Ciclista à Catalunha em 2008 e uma etapa na Vuelta a España em 2009, quer em termos de idade, tendo neste ano de 2020 completado 40 anos de idade.

Esta época teria sido a sua última, como o corredor galego teria antecipado no final da Volta a Portugal 2019, depois de ter terminado no terceiro degrau do pódio. O por duas ocasiões vencedor da Volta a Portugal é sempre apontado pelos adversários e comentadores da corrida como favorito à vitória final, quer pela sua mestria no contrarrelógio quer pela capacidade de passar as subidas e em algumas ocasiões até atacar como se os anos não passassem por ele.

2020, apesar da pandemia que deixou os corredores quase sem dias de competição, tem-se mostrado para Veloson um ano, competitivamente falando, de tão bons ou até melhores resultados que 2019 - regressa à competição com um pódio no contrarrelógio que foi Prova de Reabertura do calendário português, intrometendo-se na luta pela vitória com alguns dos mais reputados ciclistas portugueses do UCI World Tour e depois, algumas semanas mais tarde, faz top10 nos Campeonatos Nacionais de Espanha, quer na prova em linha, quer no contrarrelógio.

O Gustavo começou a Volta em destaque, logo no prólogo. Provando que a idade é apenas um número, rematou a sua boa forma crescente no recomeço de competição pós-Covid ao reclamar a vitória e a primeira camisola amarela da prova, surpreendendo toda a gente que pensaria que este prólogo assentaria apenas a ciclistas mais explosivos (como assentou o prólogo ao Caldeira no ano anterior). No final da Etapa 2, na ascenção ao Alto da Senhora da Graça, após o ataque do Amaro a 38km da meta, Gustavo ficou no grupo dos favoritos a controlar os movimentos dos rivais, a quem coube o trabalho de perseguição ao seu colega de equipa. Este seu papel foi fulcral na estratégia da sua equipa para ganhar a Volta - ou venceriam a Volta com o Amaro que carregaria a amarela até ao final ou então o Gustavo Veloso aguardaria pelo contra-relógio em Lisboa para reclamar a Volta na última jornada. O grande plano teve sempre um grande plano alternativo.

Um por todos, todos por um: João Rodrigues
João Rodrigues - o vencedor da Volta em 2019 - teve uma corrida muito diferente da que teve o ano passado. O protagonista do drama que foi a 81ª Volta a Portugal mostrou sinais de boa forma logo no prólogo. De certo, o próprio João sentiria que estava forte, capaz de um top10, talvez um top5 mas estaria capaz de novamente poder discutir a vitória na Grandíssima? Uma vez mais, a Etapa 2 deu todas as respostas. Enquanto viu Amaro voar para a vitória e Gustavo Veloso defender a sua posição, João não quebrou mas faltou-lhe um pouco de força já nos instantes finais para fechar a jornada com os favoritos, o que lhe custara alguns segundos numa prova, que como a edição que venceu, prometia ser disputada ao segundo.

Nem por isso o João desistiu da luta. Em vez disso honrou o dorsal 1 que carregava ao lutar da melhor maneira possível - em suporte dos seus companheiros de equipa. Na etapa rainha, ao subir ao ponto mais alto de Portugal continental, ele ditou o ritmo do grupo principal, controlando a corrida para o camisola amarela Amaro Antunes e para o Gustavo Veloso, a carta na manga da W52-FC Porto, assumindo totalmente como suas as necessidades da equipa. Os ataques sucederam-se ao longo dos 20km finais mas com o João na frente, impondo um ritmo trepador e respondendo às acelerações, o grupo chegou compacto ao quilómetro final. Ele foi o último homem inquebrável da W52-FC Porto, quer quando o terreno subia, quer durante as etapas mais tranquilas da Volta. O João Rodrigues termina a corrida num muito respeitável 7º posto, contribuindo assim também para mais uma vitória coletiva da W52-FC Porto, a sétima da União Ciclista do Sobrado.

Como um verdadeiro profissional, o João Rodrigues mostra saber os ciclos da vida de um ciclista de competição. A mentalidade de ser líder de uma equipa e todas as responsabilidades que isso acarreta por vezes têm de dar vez ao trabalho abnegado em prol da equipa, repagando o esforço que esta investe quando chegar o momento de ele poder voltar a lutar por uma corrida. Enquanto o papel do João foi contado em detalhe nesta história, o dos seus colegas de equipa Daniel Mestre, Samuel Caldeira, Rui Vinhas e Ricardo Mestre, todos eles também aclamados ciclistas (alguns também até vencedores da Volta), merece tanto destaque como a dele.

Algumas vezes percebido com um desporto individual pelo público em geral, pela natureza de apenas um ciclista levantar os braços na linha de meta, os fãs de ciclismo saberão dizer que a vitória é um trabalho de toda equipa. Todos trabalham para uma estratégia coletiva e quando alguém vence nesta, todos vencem e o sacrifício que cada um pôs na estrada sobe ao mais alto lugar do pódio. Esta realidade ganha valor quando um coletivo é tão forte que qualquer um dos seus ciclistas poderia ser um protagonista de conquistas com o seu nome próprio mas escolhe unir-se e trabalhar para uma vitória maior do que qualuer nome.